Sobre vinte e tantos anos e quilos a mais
Sobre vinte e tantos anos e quilos a mais
Por Ariadne Senna
(escrito em 12 de janeiro de 2018)
Nos últimos 5 anos, por vários motivos emocionais e sociais referentes à vida adulta, eu engordei 20 quilos. Isso quer dizer que atualmente eu estou 20 quilos acima do meu "peso tradicional".
Chamo de peso tradicional porque foi o peso constante durante boa parte da minha vida e que, portanto, era o peso que meu corpo naturalmente mantinha naquele contexto e modelo de vida que eu costumava ter.
Acontece que durante essa boa parte da minha vida que eu tinha 20 quilos a menos do que tenho hoje, eu me achava gorda num sentido negativo e ficava infeliz com o meu corpo. Hoje eu olho para as minhas fotos de 5 ou 10 anos atrás e vejo o absurdo que era se pensar algo assim, me pergunto como eu podia me achar gorda com aquele corpo. E a outra pergunta que me vem é: Quem me convenceu dessa ideia?
Eu sempre "fui considerada" a gordinha da turma. Ou pelo menos foi assim que me considerei durante um bom tempo. De onde vem esse rótulo eu não sei muito bem dizer, não sei se veio da televisão, da família, da listinha que votava na garota mais bonita da sala, dos meus colegas meninos, das minhas colegas meninas, dos namorados, das revistas ou da minha própria cabeça.
Provavelmente - e certamente - veio de todos esses lugares e assim meu corpo carregava essas marcas que não necessariamente eram físicas. Que sociedade é essa que faz meninas jovens de 15 anos se acharem feias e não gostarem dos seus corpos?
Então chegamos aqui hoje em que eu estou com vinte e tantos anos e kilos a mais. Momento em que eu me olho no espelho e reparo atentamente no meu corpo, para suas mudanças e transformações e me sinto mulher, uma mulher linda.
A liberdade de ser feliz com o corpo que tem é algo imensurável. A liberdade de poder fazer ou não fazer o que quiser com o seu corpo também é. E construir uma relação apropriada com o próprio corpo é extraordinário.
Lembro claramente da primeira vez da vida que afirmei para mim mesma que eu sou uma mulher bonita e ela aconteceu aos meus 23 anos. E me considero privilegiada por ter podido constatar isso ainda aos meus vinte e poucos anos.
Lembro também de um diálogo que tive há uns dois anos com atrás com um grande amigo quando comentei que eu estava precisando emagrecer por alguns motivos. Ele me olhou de cima a abaixo e me disse "Mas olha, você está muito bem!", e eu respondi: "Mas em nenhum momento eu disse que estava mal, eu sei que estou ótima e continuo linda e gostosa". Rimos. Corpo gordo não é o oposto de corpo bonito.
Ter um corpo vai muito além de ser gordx ou magrx, resumir as corporeidades a isso é um desrespeito à essa potencialidade incrível que é o corpo humano. Ter um corpo é existencial, para existir é preciso estar em um corpo, qualquer que seja, e isso é tão incrível! Do tipo, uau! Esse é o vasilhame que torna a minha vida possível! Isso é louco, não?
Corpo para mim é orgânico e sensorial e sagrado e metafísico. O corpo é meu meio de transporte nessa viagem bem louca que é a vida e por isso tento cuidar, ser carinhosa e compreensiva com ele.
Corpo não é limite, é ponte. Meu corpo é uma extensão da minha individualidade, quero que ele me acompanhe e me possibilite vivenciar as experiências que me proponho e as coisas que fazem sentido pra mim. E ele tem me acompanhado, poder contar com o apoio dele é fundamental. Meu corpo não é meu inimigo.
Nos últimos 5 anos eu engordei 20 kilos e conviver com meu corpo me proporcionou aprendizados incríveis. Neste ano estou construindo muitas mudanças importantes na minha vida - acreditem, estou mesmo, aguardem os próximos capítulos - e entre essas mudanças talvez eu emagreça ou talvez não, mas com certeza meu corpo vai ganhar novas marcas, consequências das minhas escolhas e histórias.
E sou grata a meu corpo e às marcas que ele carrega, marcas agora escolhidas por mim e não por quem julga meu corpo. Obrigada por me ensinar tanto, obrigada por me acolher e me potencializar, obrigada por construirmos essa relação de amor. Vamos juntas
Por Ariadne Senna
(escrito em 12 de janeiro de 2018)
Nos últimos 5 anos, por vários motivos emocionais e sociais referentes à vida adulta, eu engordei 20 quilos. Isso quer dizer que atualmente eu estou 20 quilos acima do meu "peso tradicional".
Chamo de peso tradicional porque foi o peso constante durante boa parte da minha vida e que, portanto, era o peso que meu corpo naturalmente mantinha naquele contexto e modelo de vida que eu costumava ter.
Acontece que durante essa boa parte da minha vida que eu tinha 20 quilos a menos do que tenho hoje, eu me achava gorda num sentido negativo e ficava infeliz com o meu corpo. Hoje eu olho para as minhas fotos de 5 ou 10 anos atrás e vejo o absurdo que era se pensar algo assim, me pergunto como eu podia me achar gorda com aquele corpo. E a outra pergunta que me vem é: Quem me convenceu dessa ideia?
Eu sempre "fui considerada" a gordinha da turma. Ou pelo menos foi assim que me considerei durante um bom tempo. De onde vem esse rótulo eu não sei muito bem dizer, não sei se veio da televisão, da família, da listinha que votava na garota mais bonita da sala, dos meus colegas meninos, das minhas colegas meninas, dos namorados, das revistas ou da minha própria cabeça.
Provavelmente - e certamente - veio de todos esses lugares e assim meu corpo carregava essas marcas que não necessariamente eram físicas. Que sociedade é essa que faz meninas jovens de 15 anos se acharem feias e não gostarem dos seus corpos?
Então chegamos aqui hoje em que eu estou com vinte e tantos anos e kilos a mais. Momento em que eu me olho no espelho e reparo atentamente no meu corpo, para suas mudanças e transformações e me sinto mulher, uma mulher linda.
A liberdade de ser feliz com o corpo que tem é algo imensurável. A liberdade de poder fazer ou não fazer o que quiser com o seu corpo também é. E construir uma relação apropriada com o próprio corpo é extraordinário.
Lembro claramente da primeira vez da vida que afirmei para mim mesma que eu sou uma mulher bonita e ela aconteceu aos meus 23 anos. E me considero privilegiada por ter podido constatar isso ainda aos meus vinte e poucos anos.
Lembro também de um diálogo que tive há uns dois anos com atrás com um grande amigo quando comentei que eu estava precisando emagrecer por alguns motivos. Ele me olhou de cima a abaixo e me disse "Mas olha, você está muito bem!", e eu respondi: "Mas em nenhum momento eu disse que estava mal, eu sei que estou ótima e continuo linda e gostosa". Rimos. Corpo gordo não é o oposto de corpo bonito.
Ter um corpo vai muito além de ser gordx ou magrx, resumir as corporeidades a isso é um desrespeito à essa potencialidade incrível que é o corpo humano. Ter um corpo é existencial, para existir é preciso estar em um corpo, qualquer que seja, e isso é tão incrível! Do tipo, uau! Esse é o vasilhame que torna a minha vida possível! Isso é louco, não?
Corpo para mim é orgânico e sensorial e sagrado e metafísico. O corpo é meu meio de transporte nessa viagem bem louca que é a vida e por isso tento cuidar, ser carinhosa e compreensiva com ele.
Corpo não é limite, é ponte. Meu corpo é uma extensão da minha individualidade, quero que ele me acompanhe e me possibilite vivenciar as experiências que me proponho e as coisas que fazem sentido pra mim. E ele tem me acompanhado, poder contar com o apoio dele é fundamental. Meu corpo não é meu inimigo.
Nos últimos 5 anos eu engordei 20 kilos e conviver com meu corpo me proporcionou aprendizados incríveis. Neste ano estou construindo muitas mudanças importantes na minha vida - acreditem, estou mesmo, aguardem os próximos capítulos - e entre essas mudanças talvez eu emagreça ou talvez não, mas com certeza meu corpo vai ganhar novas marcas, consequências das minhas escolhas e histórias.
E sou grata a meu corpo e às marcas que ele carrega, marcas agora escolhidas por mim e não por quem julga meu corpo. Obrigada por me ensinar tanto, obrigada por me acolher e me potencializar, obrigada por construirmos essa relação de amor. Vamos juntas
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