Últimas palavras
Últimas palavras
Por Ariadne Senna
Por Ariadne Senna
São Paulo, 02 de maio de 2007.
Hoje fui condenada pelo meu maior crime: amar.
Sim, amei e me atrevo a dizer que amo! Admito meu próprio erro e aceito ser reprovada por tal ato. Mas afirmo que não foi premeditado, senhoras e senhores, simplesmente ocorreu sem que eu percebesse e quando me dei conta já era tarde demais e não soube, não pude controlar. Sim, talvez tenha sido fraca e tola; tola por não estar atenta aos fatos e fraca por deixar que a situação chegasse a esse ponto insuportável, insustentável, incontrolável...
Estou aqui justamente para dizer que aceito minha condenação e que sinto que devo explicações à sociedade, aos sábios senhores e pudicas senhoras que ficaram horrorizados diante de meu feito hediondo. Peço perdão por esse atentado à moral que cometi e peço também que, por favor, escutem o que tenho a dizer.
No ínicio juro que não tive culpa, o sentimento que crescia em meu peito parecia inocente e não preocupei-me em barrar seu crescimento. Mas naquele dia... Naquele dia em que vi lágrimas em seus olhos, percebi o quanto me doía vê-lo sofrer, percebi que preferia que tal sofrer estivesse em mim, que não suportava vê-lo triste, percebi que o que mais queria era abraça-lo e tentar afastar toda a dor do mundo. Foi então que percebi tardiamente o que estava acontecendo, foi então que percebi o quanto a sua presença me fazia bem, o quão agradável era estar em seus braços, percebi que meu coração acelerava quando meus olhos o encontravam e que meu rosto corava quando me tocava. Pecebi, tentei conter-me, tentei organizar e controlar meus pensamentos e sentimentos, tentei acreditar e convencer de que tudo não passava de uma doce confusão... Mas então percebi algo mais, percebi que todas essas tentativas eram apenas tentativas de enganar a mim mesma.
Sim, poderia ter enfrentado tal admiração, poderia ter dilacerado este amor e o enterrado profundamente para que, mesmo se ele insistisse em gritar, ninguém o ouvisse. E o tempo se encarregaria de faze-lo emudecer...
Mas para quê matar este sentimento se com a sua morte viria junto também a minha? O crime já havia sido cometido e por mais que se retire o prego da cerca, sempre restará o buraco. Não me envergonho por ter alimentado este amor impossível, não me envergonho das noites mal dormidas, das vezes que sonhei acordada, da esperança que ousei ter. Isso trouxe minha condenação e digo que por este motivo valeria a pena passar eternidades enclausurada, pois ao menos eu vivi esse amor. E por mais incorreto que vocês podem achar, eu não carrego em minhas costas o peso do arrependimento! Afinal, por que iria arrepender-me de ter sido abençoada pela mais bela das sensações? Por que me arrependeria das lágrimas derramadas sobre o travesseiro nas noites gélidas, da felicidade que me invadia ao ver o seu rosto, de dar asas à minha imaginação, de toda essa mistura de ódio, sofrimento e alegria, essa sinestesia que é amor?
Me prendam, me matem, pois já tive a oportunidade de desfrutar de uma das melhores coisas da vida, algo que vocês não tiveram, não terão ou simplesmente não tiveram a coragem de aproveitar a oportunidade de faze-lo. Termino dizendo que por pior que tenha sido meu crime, espero que muitos ainda tornem-se criminosos! E que não importa qual for a pena que me dedicarão, o que importa é que meu amor existiu! E isso, a lembrança desse amor, nunca ninguém poderá matar...
Comentários
Postar um comentário