Heterônimos de mim mesma
Heterônimos de mim mesma
Por Ariadne Senna
Sou formada não só por uma, mas por várias de mim que habitam dentro deste mesmo corpo. Personagens, personalidades, partes que só eu conheço e que muitas vezes surpreendem até a mim mesma. Quem disse que devemos ser "um"? Quem disse que devemos seguir junto a esta sociedade que esconde suas faces atrás de máscaras de falsa normalidade?
Como disse Mário de Andrade: "Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta"! E quero saber o que me impede de ter tantos lados! Heterônimos de mim mesma, anônimos ou declarados, decentes ou cafajestes, não importa... Fazem parte de mim. E sem eles acredito que, ao contrário do que se prega, eu não seria mais autêntica, e sim menos "eu"... Perderia todo este encanto de ser humana, inconstante!
Emoções, comportamentos, reações diferentes. E isso me transforma em que? Em um paciente multipolar com distúrbios psicológicos? Acredito que não. Todos temos personalidades obscuras, coisas que não imaginamos que faríamos, que pensaríamos e que não podemos nem imaginar que outros descubram... Se não acredita nisso, você é tão bom a ponto de estar enganando a si mesmo.
E assim conheço tantas pessoas novas! Visões e opiniões, pensamentos, filosofias e conclusões, e todas vivendo e aprendendo junto comigo, todas dentro de mim... Personagens de um livro de várias páginas que por fim interagem em uma mesma história... Heterônimos de mim mesma feitos de poesia vivendo uma grande epopéia.
Eu sou trezentos,
sou trezentos e cinqüenta
Mário de Andrade
Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Se um deus morrer, irei ao Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta,
Mas um dia afinal toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
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