Estado de Graça
Estado de Graça
por Ariadne Senna
Hoje, de maneira inesperada, entrei em contato com a minha história. Lembranças e vozes invadiram minha memória e levaram à minha boca um sorriso, à minha mente abertura e aos passos, leveza. Hoje fui invadida por uma gratidão imensa, hoje tive a oportunidade de ser atingida pela "dádiva indubitável de existir materialmente".
Peço então licença à querida Clarice Lispector para escrever sobre o meu estado de Graça. Não que eu esteja à sua altura, mas porque estados de Graça acontecem para ser compartilhados. A Graça só se completa quando você pode abençoar o outro compartilhando um pouquinho de sua luz.
O som de minhas memórias me trouxe uma sinestesia de sensações, um acalanto no peito, um brilho em meu olhar, um sabor de melancia em minha manhã. Aquelas vozes que eu ouvia - e que nem sabia mais que existiam alí - me fizeram encontrar mais de mim. Me fizeram atingir - se Kundera me permite - uma sustentável leveza de ser.
E a beleza de existir me acometeu. A beleza das histórias vividas, dos sentimentos sentidos, dos pés descalços a caminhar e correr pela grama pelos caminhos e trajetórias que se colocaram assim, diante de mim.
E junto com tudo isso, me surgiu um verdadeiro sentimento de perdão ao mundo. Um perdão que, como um batismo, me lavou jogando cuidadosamente a água sobre minha cabeça e deixando que ela escorresse por todo meu corpo, levando pesos que há tempos não precisavam mais existir,
Hoje e só por hoje, estou agraciada.
Comentários
Postar um comentário