Ao som

Ao som
por Ariadne Senna

  Hoje caminhei com fones de ouvido. Hoje, depois de muito tempo, muito tempo mesmo - depois de alguns anos! -, enfim voltei a caminhar com fones de ouvido na rua. 

  Parei de usar fones de ouvido na rua por alguns motivos triviais. Como, por exemplo, pelo fato de em 2007 eu ter sido atropelada enquanto atravessava a rua ouvindo música distraidamente. Ou porque de fato eu tenho uma perda auditiva considerável no meu ouvido esquerdo e eu estava começando a sentir dores de ouvido quando usava fones e também uma acentuação da minha surdez. Coisas poucas, coisas banais.

 E parei. Naturalmente, foi natural pra mim, não me fazia falta. Até porque andava com fones de ouvido na rua desde quando tinha meus 13 anos, acompanhada de meu walkman e rebeldia adolescente. Já tinha experimentado muitos anos de música alta, passado por diversos aparelhos eletrônicos e estilos musicais, evoluído junto com a música que invadia meus ouvidos.

 Parei e passei um longo tempo da minha vida então ouvindo o mundo real, os sons do trânsito, as conversas, as risadas, os xingamentos, passarinhos cantando e choro de criança. Um longo tempo lidando com a concretude dos sons do mundo, com a dureza mas também com a beleza da vida sem trilha. 

  Mas tive a surpresa de, ao conectar meus fones de ouvido no celular por conta de uma ligação, descobrir que meu próprio celular me sugeria apertar o play. Me perguntei o que teria lá para ser tocado - já que não faço do meu celular um grande acervo musical - e resolvi ouvir a resposta. Apertei o play. E foi lindo.

  Como não me recordava da sensação maravilhosa de ser tocada pela música que toca, de ter trilha sonora para a vida. Sensação maravilhosa de ser surpreendida pela música seguinte completamente inesperada, mas que traduz tantas sensações e que se enquadra tão bem com contexto da vida que passa lá fora.

  Redescobri a música. Redescobri o compasso dos meus passos. Redescobri a poesia em mim.

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