Fotografias
Fotografias
Por Ariadne Senna
Um dia ela ouvira dizer que o que os nossos olhos captam não é o movimento, mas sim as cenas. E que cada cena se junta com outra, assim como no cinema, e então forma o nosso filme do dia-a-dia.
Outro dia ela estava no ônibus, sentada no banco do corredor. Ela gostava de andar de ônibus, gostava de ficar observando as pessoas e de observar como as pessoas a observavam. Gostava de ficar imaginando como era a vida daquelas pessoas e por que elas estavam cansadas ou tranquilas ou de mau-humor. Naquele dia a mulher ao lado estava dormindo e ao olhar para a mulher ao lado seus olhos encontraram a janela. Já tinha visto o mundo através de uma janela de ônibus por diversas vezes, mas naquele dia houve algo de diferente! Como as coisas passavam rápido! Ou como passavam cada vez mais devagar e devagar e devagar até o ônibus parar... E então se lembrou daquilo que um dia ouvira dizer.
Mas que coisa mais fantástica esses olhos de máquina fotográfica! Como tudo fica tão perfeito, tão unido no movimento! Não dava nem tempo de imaginar que cada cena, cada minimo momento é uma fotografia que se junta com tantas outras fotografias e enquanto isso outras fotografias estão sendo tiradas... Ela estava maravilhada com sua descoberta! Aquela mesma rua pela qual passava todos os dias se tornou de repente diferente! As pessoas que estavam lá no ônibus iam ganhando mais movimento... Quantas cenas afinal são registradas pelos nossos olhos enquanto observamos alguém bocejar? E quantas outras mais acontecem enquanto uma pessoa coça o nariz? Todas essas questões e mais algumas se passavam pela cabeça dela... Enquanto muitas outras cenas passavam por seu olhos.
Ah, a sua nova descoberta a tinha deixado maravilhada! Como nunca tinha reparado nas coisas dessa maneira antes? Sentiu vontade de deixar isso registrado, sentiu vontade de esrever o quanto seus olhos podiam fotografar! Pegou em sua bolsa um lápis e um pequeno pedaço de papel e começou a escrever... E enquanto escrevia, via cada ponto sair do lápis e muitos pontos formarem uma letra e várias letras formarem palavras e então frases e... E então era assim? As cenas se juntavam dessa tal maneira sem nem antes perguntar se já podiam se juntar? Ah, mas por que? Então ela nunca saberia como é apenas uma cena, só uma, apenas uma, sem ser seguida de nenhuma outra?
Parou de escrever. Não aguentava mais ver os pontos se seguindo de outros pontos, não aguentava mais o movimento! Olhava em volta procurando ao menos uma única estável cena, mas não encontrou. Teve a idéia de esperar o ônibus então parar, quem sabe assim ela conseguia encontrar sua cena! Ela estava olhando pela janela e tudo foi passando, passando, parando, parando, parou. Continuou com o olhar fixo, não mexendo um músculo, a examinar a janela. Não havia nenhuma pessoa na cena, não havia nada que se mexia, somente calçada, paredes, árvores e... vento. O vento acabou com sua cena talvez perfeita! Passou brincalhão por entre os galhos das árvores fazendo as folhas dançarem. Ficou brava com o vento! Afinal, se não fosse ele...
Então resolveu fixar seus olhos no banco da frente, afinal, bancos não se mexem! E ficou olhando aquela paisagem cinza por alguns segundos e realmente, o banco não se mexeu! Mas então o que ela poderia fazer com a tal da bendita visão periférica?! Ah, ela não a deixava em paz! Por que seus olhos não podiam simplesmente olhar para a paisagem cinza do banco sem se importar com os movimentos que aconteciam ao seu redor? Mas ela insistiu, continuou a olhar fixamente acreditando que alguma hora seus olhos estariam totalmente focados no banco até que... Uma lombada a atrapalhou. Ah se não fosse a lombada! E se então não era a lombada, era uma mosca que aparecia de repente, era o sol que ficava coberto por uma nuvem ou até mesmo sua própria respiração!
Ela desitiu! Deixou de procurar as cenas e de observar as pessoas, simplesmente ficou olhando para algum qualquer lugar com o olhar perdido e pensamentos desorientados. Foi quando ela percebeu. Percebeu que não importava que ela conseguisse fixar apenas uma cena, essa cena nunca seria a mesma! Ela nunca conseguiria captar uma única cena porque ela nunca seria capaz de parar o tempo. E então, por mais que seus olhos captassem sempre a mesma cena, igualmente igual, ela nunca poderia ser tão igual assim, porque tudo poderia estar parado, mas o tempo... O tempo não.
Ah, o tempo! Sempre o tempo! Ela ficou brava com isso! Ela enfim nunca conseguiria saber como é captar apenas uma imagem e só aquela imagem... Ficou brava com o tempo como tantas outras vezes e como tantas outras pessoas que ficam bravas com as tentativas em vão de controlar o tempo! Sempre ele que vem nos causando confusões, complicações! Mas também muitas vezes é com ele que vêm as soluções...
É. Ela fez as pazes. Fez as pazes com o tempo, com o vento, com o movimento. E continuou a admirar seu dia que passava pela janela do ônibus...
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