Ensaio sobre as Lágrimas

Ensaio sobre as Lágrimas

Por Ariadne Senna

  Um dia ouvi falar que existem comportamentos universais presentes em todas as línguas e culturas do mundo e o sorriso foi dado como exemplo, o sorriso é um comportamento que é compreendido não importa aonde se esteja. Acredito que então o oposto do sorriso também deva ser uma linguagem universal: o choro, a lágrima, pois nem só de sorrisos são construídas as  relações humanas.
  Lágrimas. Elas surgem, molham os olhos e escorrem pelo rosto, exteriorizando e comunicando o que antes era somente interno. Já o que elas revelam, se são lágrimas de dor, de saudade, de felicidade ou de melancolia, não importa por agora. São lágrimas e apenas uma coisa é certa: lágrimas são feitas de água, sal e emoção - seja qual for - e elas revelam justamente a presença de um sentimento forte dentro do peito (ou na garganta, ou no estômago, depende do lugar de preferência do sentimento).
  As lágrimas são a nossa capacidade de transformar a emoção em forma concreta, em material visível e palpável. Lágrimas são emoção em fase líquida e nos mostram que há algo pulsando dentro de nós e que precisa ser colocado para fora - seja o que for. Lágrimas são emoções pesadas que tomam forma leve e límpida.
  Fico fascinada pela sua capacidade de afetação, acredito que para algum comportamento ser uma linguagem universal ele deve ter esta capacidade de afetar pois somente assim prova reação e constrói relação, e assim são as lágrimas, elas atingem e afetam. Mas o que mais me encanta nas lágrimas é a sua característica ambígua, a possibilidade de um símbolo possuir tantos e múltiplos significados e, justamente por isso, as lágrimas são uma das coisas mais explícitas e mais misteriosas da vida.

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