Marcada

Marcada
Por Ariadne Senna

  Relato de uma história real.

  Um homem passou por mim e me abusou. Um homem desconhecido ao passar por mim resolveu que meu corpo era seu e que tinha assim o direito de o violar. Simples assim. Não é poético e nem literário, é literal e realidade. Poderia não ser... Mas é.
  Um homem passou por mim com passos determinados em um dia de chuva e me abusou. Como o abusador escolhe sua vítima, desde quando ele estava calculando seus atos, isso eu não sei. A injustiça é que o abusador, em seus passos em direção à abusada, sempre sabe o que vai acontecer com sua vítima, mas o contrário nunca acontece. Enquanto a vítima segue seu caminho com passos inocentes, os abusador define seu caminho com passos calculados e movimentos escolhidos. Eles se cruzam. E o abuso acontece.
  A mão encosta no corpo que antes era íntimo, a mão queima o que antes era puro. A mão infecta, marca, contamina. O toque ultrapassa a pele, invade as veias, inunda o corpo, envenena a respiração, a pulsação, os pensamentos, as emoções, os sentimentos. Antes do abuso a vítima foi apenas vista como um corpo, sem rosto, sem humanidade. E depois do abuso o que resta da vítima é de fato somente um corpo, um trapo. Foi assim, simples assim.
  Fui abusada. Fui ignorada como ser humano. Fui vista como um pedaço de carne na vitrine exposta e disposta para experimentação e prazer do freguês. E fui apalpada, experimentada, provada, degustada. O abusador teve o que procurava. A abusada fica então se procurando. Se procurando em meio ao choque, em meio à paralisação. Se procurando em meio ao medo de acontecer algo pior. Se procurando em meio àquela sensação de que a mão que foi embora ainda continua ali, marcando o abuso. Se procurando, sem saber o que fazer, sem saber porquê isso se fez.
  Como vítima então me virei, gritei, tentei, em meio ao meu nó na garganta, manifestar a minha revolta! Falei com as costas do abusador que se escondeu debaixo do guarda-chuva e que em certo momento decidiu correr e virar a esquina. Correu. Foi embora  e a vítima ficou. É isso que acontece no abuso, o abusador segue seu rumo e a abusada fica no mesmo lugar, revivendo a situação. O abusador passa, com qual sentimento ou pensamento, não se sabe! Mas ele passa, seja prazer ou culpa, o abusador vai embora e tudo passa, nada se afeta. A vitima fica. E seus sentimentos e memórias ficam. Atordoando-a tanto quanto a marca da mão que marcou o abuso.

"- Ei! Cretino!
Os passos se aceleram e as pernas correm. Mais um grito corta o barulho da chuva.
- Cretino!!!
As pernas passam rápido por uma mulher sentada no ponto de ônibus que olha e grita:
- O que foi moça, o que aconteceu?
- Ele passou a mão em mim!
- O que?
- Ele me pegou, passou a mão em mim!
- Ah, tinha pensado que era assalto...
Não moça. Não foi assalto. Ele só levou minha dignidade e me devolveu as minhas lágrimas."

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