(In)Fútil

(In)Fútil
Por Ariadne Senna

  Inútil.

  E quantas vezes já me peguei neste mundo ouvindo falas que afirmavam o quanto algo era inútil, o quanto alguém era inútil, o quanto não adiantava fazer nada pois qualquer ação seria inútil... 
  Ficou ecoando forte em mim esta palavra: i-n-ú-t-i-l. Inútil! Aquilo que não tem utilidade, aquilo que não presta, o que não possui serventia e é totalmente desnecessário: i-n-ú-t-i-l. Inútil? ... Inútil pra quem? Para mim? Para você? Para a humanidade inteira. 
  O que é o inútil? A inutilidade possui a mesma face e sentido para mim, para você, para a humanidade inteira? E o que é útil? A utilidade possui a mesma face e sentido para mim, para você, para a humanidade inteira?

  Fico me perguntando quando foi a primeira vez no mundo que alguém pronunciou tal palavra para referir-se a algo. Quando foi que as coisas, as pessoas e as situações pararam de perder a sua utilidade? Quando foi que alguém se pensou no direito de determinar algo ou alguém como inútil?
  E no decorrer desta suposta evolução humana, fomos deixando as inutilidades para trás, foi-se determinando para uma determinada sociedade o que deve ser considerado útil e construtivo, foi-se impondo qual utilidade que deve ser consumida, foi-se exigindo a produção útil dos indivíduos.

  A boneca útil para a menina se torna inútil para o executivo; a árvore útil ao primata se torna inútil à construtora; a inspiração útil ao artista se torna inútil ao dinheiro; o aprendizado útil ao desenvolvimento se torna inútil aos políticos; a pomba útil à natureza se torna inútil aos carros; a utopia útil ao anarquista se faz inútil ao capitalista; o sonho útil ao sonhador se torna inútil ao racional; a palavra útil ao poeta se faz inútil à economia.
  Vão se inutilizando as coisas, vão arrancando de nós as nossas utilidades e importâncias como se fossem ervas daninhas.

 E o que faço aqui é útil ou inútil? Para quem? Para mim, para você ou para a humanidade inteira?

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