Nesta dimensão
Nesta dimensão
Por Ariadne Senna
Uma vez ouvi dizer de uma teoria de universos paralelos baseado na escolha. A tal teoria dizia que nos dividimos a cada momento que realizamos uma escolha na nossa vida: uma das dimensões segue o caminho escolhido enquanto meus outros "eus" em minhas outras dimensões seguiriam pelo caminho não escolhido.
Acho isso muito maluco! De acordo com a teoria, qualquer mínima escolha que se faça resulta em uma nova dimensão. Sendo assim, neste exato momento, deve existir alguma outra dimensão na qual eu escolhi por não escrever este texto...
Fico então me lembrando das escolhas - principalmente das grandes escolhas - da minha vida e pensar que existem outras Ariadnes em outras dimensões vivenciando outras escolhas e possibilidades é bem estranho. Pensar, por exemplo, que talvez exista uma Ariadne que está terminando sua faculdade de psicologia em Assis e que todas as suas experiências nestes últimos cinco anos foram diferentes das minhas...
Como seria essa garota? O que ela preza? Quais valores ela cultivou? Que experiências possui? Como seria essa outra Ariadne completamente estranha para mim?
E então posso pensar em tantas coisas! Pensar que em alguma dimensão ainda existe uma Ariadne que continua com algum ex-namorado, que ainda come carne, que gosta de outras coisas, conversa com outras pessoas e tem outros conhecimentos.
E ao pensar nisso tudo, claro, me faço pensar sobre as minhas escolhas, sobre a escolha de escolher. Sobre a palavra dita, o caminho escolhido, a decisão tomada. A todo momento a nossa vida e nossos dias são definidos a partir das escolhas que fazemos e isso é certo! Até mesmo óbvio... Mas os 23 anos vividos nesta dimensão me ensinaram que muitas vezes o óbvio passa despercebido em meio ao turbilhão dos cotidianos.
Portanto é teoricamente óbvio que somos feitos de nossas escolhas e diante disso, somos também feitos das nossas não-escolhas, pois a cada escolha feita, abrimos mão de todas as outras possibilidades. Assim sendo, tudo que deixamos de escolher também nos constitui e nos acompanha. Tanto que, de acordo com a teoria mencionada no incio do texto, existem outros de nós vivenciando a nossa não-escolha e, por mais estranho que pareça, tais dimensões também fazem parte da gente.
E o que são as escolhas? Cotidianamente podemos nos ver divididos diante de situações e decisões, ainda mais nesta sociedade atual em que tantas coisas são oferecidas e consumidas. Mas de fato compreendemos o poder de uma escolha? E ainda mais, compreendemos que temos o poder da escolha?
E ao me questionar sobre as escolhas e não-escolhas da vida, pergunto-me: será que existem coisas que a gente não escolhe? Será que existe algo de comum entre todas as Ariadnes de todos esses universos paralelos, algo que, apesar de tudo, faz com que todas elas continuem sendo "eu"?
E ainda me vem uma outra questão: o que determina um momento de escolha? Como os momentos de escolha surgem na nossa vida? As escolhas podem ser feitas a qualquer momento ou será que existem tempos específicos para serem feitas? E se existem, os momentos de escolha podem assim, passar desapercebidos de forma a perdermos a chance de escolher? E será que quando realizamos uma escolha sem a consciência de que de fato aquilo se constitui como uma escolha, pode-se considerar uma escolha?
Será que em alguma outra dimensão eu nunca me perguntei sobre essas coisas?
E será que em alguma outra dimensão meu cérebro consegue parar de pensar em algum momento? ... Espero que sim.
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