Velhas poltronas
Velhas Poltronas
Por Ariadne Senna
Era uma noite de domingo e lá estava ela tomando chá na sua velha poltrona. Já estava de pijama e estava tomando algo quente para enfim ir dormir. A televisão estava ligada passando qualquer coisa pois ela gostava de ter barulho na casa, fazia com que se sentisse menos sozinha.
Olhou para a sala, para aquelas paredes, para a mobília, para sua xícara favorita em suas mãos e enfim focou-se na poltrona em que estava sentada com os pés para cima. Era o seu lugar naquela sala de estar, um lugar confortável com o qual ela já estava acostumada e até mesmo acomodada. Era uma poltrona vermelha e já estava velha e desgastada, poltrona cheia de histórias, de marcas e manchas de molho de tomate e café.
Era lá que ela sempre se acomodava, era para a poltrona que seus pés sempre a levavam. Já estava amaciada, já tinha o formato dela, sempre sentava e acomodava-se em sua posição preferida, com os pés para cima.
Mas de fato, percebeu que era sempre assim. Sempre sentava-se no mesmo lugar para fazer as mesmas coisas, sempre ia parar naquela mesma poltrona, sua velha conhecida, companheira de tantas noites e dias. E começou a se questionar o porquê disto.
Por que ela sempre sentava naquele lugar já conhecido? Por que fazia sempre aquele mesmo caminho? Por que insistia naquela desgastada e desbotada poltrona vermelha?
Começou a lembrar de tudo que já havia vivido com aquela poltrona, de todas as risadas e lágrimas que haviam ocorrido naquele lugar, de todas as pessoas que já haviam se sentado lá. Olhou para uma parte desgastada e lembrou-se de quando sua gata insistia em afiar as unhas naquela poltrona. Percebeu uma mancha e lembrou-se da vez que havia se queimado com café.
Acomodou-se. Sentia-se confortável naquele lugar, ao mesmo tempo que setia que já havia passado tempo demais lá... Percebeu que talvez fosse momento de mudar. Olhou ao redor e pensou que talvez sua sala estivesse precisando de uma pintura, de alguns retoques, mais cor nas paredes. Ficou imaginando como poderia refazer seu lugar, tornar mais próprio e seu tudo aquilo que acabou desgastando-se com o passar dos tempos.
Poderia pintar as paredes, mudar os móveis de lugar, comprar plantas, até mesmo fazer um jardim! E começou a se lembrar das coisas que gostaria de ter feito, dos seus sonhos que foram deixados para trás. Lembrou-se que há tempos estava para comprar uma vitrola para poder tocar seus velhos vinis e que houve um certo tempo que ela pensava em fazer cerâmicas para enfeitar sua sala.
Por que as coisas estavam daquela maneira há tanto tempo? - ela se perguntou. Pensou que estavam bem assim, que era confortável, cada coisa tinha seu lugar, ela conhecia cada canto e cada caminho daquela sala de estar. Conhecia cada defeito daquela poltrona, cada história. Era cômodo. Tão cômodo que começou a sufoca-la.
Hoje as paredes brancas estão laranjas e vermelhas e a sala exibe plantas acomodadas em vasos de cerâmica. A televisão não fica mais alí e no lugar tem uma bela vitrola entre uma grande coleção de discos de vinil. Cortinas de tecido florido, almofadas espalhadas, uma toalha rendada sobre a mesa.
Mas em um canto, sob uma bela manta dourada, ainda podemos encontrar sua desbotada poltrona vermelha. Continua lá, em outro lugar, de outra maneira, mas ainda está lá. Ela fica lá em meio às coisas antigas e as coisas novas, em meio às mudanças que sempre ocorrem mas que nunca retiram o que a sala tem de mais especial.
curti muito esse, Dnei. muito bom! :]
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