Contos Adulterados III

O último cigarro
Por Ariadne Senna

Lá estava ela fumando seu cigarro e olhando pela janela. Olhava os carros passando e o tempo corria calmamente em seu lugar. Não sentia nenhum peso de arrependimento, muito pelo contrário, estava tranquila a olhar pela janela e entre uma tragada e outra transparecia um leve sorriso misterioso, um sorriso desafiador e encantador.
A brasa se apagou no cinzeiro. Tirou do bolso um isqueiro e uma caixa de cigarros, restavam somente dois últimos. Pegou um, o acendeu, guardou as coisas em seu bolso e voltou a encarar a janela com oss carros que iluminavam a rua com seus faróis. Enquanto fumava, pensava em tudo que havia acontecido, em todos os momentos que havia vivido naquele e em tantos outros quartos. As memórias eram revisitadas, as imagens de prazer passavam repetidamente em sua mente.
Utilizou novamente o cinzeiro que se equilibrava no parapeito da janela e pegou seu último cigarro, acendeu-o e guardou o maço vazio e o isqueiro de volta no bolso. Mais um cigarro queimava em sua boca e mais pensamentos e lembranças passavam por sua mente. Estava calma, somente aguardando, olhando janela afora, pensando em qual encontro teria naquela noite. Não se arrependia de nada que havia feito nem das decisões que havia tomado, simplesmente sabia que era assim que deveria acontecer.
Deu sua última baforada de fumaça e olhou o relógio. Duas horas da madrugada, o horário combinado. Apagou seu último cigarro, pois ele não viria mais: até às duas horas era o prazo máximo que ela tinha oferecido para que ele viesse se encontrar com ela, mas pelo visto ele havia mantido a decisão de ficar com a sua esposa, sem mais traí-la. Assim, ela manteria a decisão de ir embora.
Colocou novamente a mão no bolso e tirou uma arma calibre 38. Olhou novamente para o envelope destinado à esposa dele que deixou enconstado na janela ao lado do cinzeiro e então puxou o gatilho contra sua cabeça.

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