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Um café, por favor II

Café com Leite Por Ariadne Senna Ele e ela entram para tomar café da manhã, sentam em uma mesa um de frente para o outro. Ele é um senhor negro com cabelos totalmente brancos. Ela, uma senhora branca com cabelos que ainda carregam alguma cor. Ela usa óculos, ele não. Os dois usam blusa de frio feita de lã. Pedem e chega na mesa duas coxinhas de frango servidas cada uma em um prato. Ele embala a ponta da coxinha com o guardanapo e começa a comê-la pela parte rechonchuda e carnuda. Ela embala a base redonda da coxinha no guardanapo e começa a comer pela ponta crocante. Ambos comem com muito gosto. Tomam bebidas quentes entre uma mordida e outra,  um café para ele e leite puro para ela. As bebidas são servidas no mesmo tipo de copo, aquele copo americano pequeno típico dos botecos paulistanos em que eles já tomaram café e leite tantas outras vezes mais. O copo combina com os seus corpos velhos e pequenos, com suas mãos já manchadas e enrugadas pelo tempo mas que ainda carregam ...

Encontro

Encontro Por Ariadne Senna Pulsa em mim essa pontada, esse aperto, pulsação que em mim começa no peito e de repente toma o corpo inteiro. S u f o c a m e n t o . . .                                    . . . Ah. Como eu queria voltar a respirar. Vontade de me rasgar inteira, de me rasgar por inteiro, de correr sentindo o vento, correr para longe somente olhando pra frente seguindo apenas o caminho sem saber onde vou chegar. Correr, correr, correr! Sentindo o corpo, sentindo o sangue, sentindo os poros se abrindo e as lágrimas lavando a alma. Corra menina, corra. E de repente paro. E me vejo. Em frente de mim mesma. Espelho. .olhepsE Corri tanto só para me encontrar em outro lugar.

De tanto em tanto tempo

De tanto em tanto tempo por Ariadne Senna Entrei nos meus escritos para escrever sobre você. Parei. Pensei: por que escrever aqui e não te dizer diretamente? Não sei. Voltei alguns passos atrás. Fui até você e fiquei te olhando com cara de apaixonada, com uma angústia dentro do peito que talvez fosse desnecessária, mas que intensamente não me abandonava. Revivi você, relembrei você, me reapaixonei por você. Por este homem que, sozinho, é capaz de fazer um sarau dentro de mim. Fui então até os seus escritos e tive um encontro com um você de anos atrás. Encontrei um você antes de mim e até um você durante nós dois. E me veio esse medo irracional que tenho de me desencontrar de você. Esse medo que irracionalmente pessoas podem chamar de amor, mas que talvez não seja! E foi quando outro sentimento tomou conta de mim: perdão. Pra você. Peço desculpas. Por esse amor contaminado. Deveria viver uma vida leve e te incentivar a ser mais leve ainda, a voar cada vez mais alto sempre. In...

Versos XLIX

(escrito em 13 de outubro de 2015) Espuma de Mar Preciso que haja correnteza Que ela invada minhas veias Habite meu ventre Aconteça em meu sangue Que corra em mim de maneira a correr sem mim Sem controle Me invadindo e me arrebentando sem permissão Preciso que inunde Que eu, imunda, me inunde! Transborde! Que eu me lave e seja levada pelo fluxo da corrente Pra que eu possa me perder E encharcar-me de maneira a não saber onde começo em mim e onde termina a água Por favor, me faça diluir! Me misturar Por favor, me faça desmanchar Até não ter mais forma, não ter mais sobra Até ser espuma de mar Quero desfazer-me Me constituir como matéria amorfa Fluída e porosa, per-me-á-vel Para que tudo possa me invadir Para que o mundo possa habitar em mim Sem que nada precise ficar Ariadne Senna

Atropelamento

(Escrito em 14 de setembro de 2015) Atropelamento Por Ariadne Senna Para o ciclista que me atropelou quando atravessou o farol vermelho enquanto eu atravessava a faixa de pedestres: Eu estava no verde, eu estava certa. Você veio por entre os carros quase me acertando e cheio de razão gritou: "Sai da frente, gordinha" E sem eu perceber e nem prever que isso aconteceria, fui atropelada por você, senhor ciclista. Você que atropelou minha luta, minha auto-estima, minha auto-imagem, meu orgulho de ser quem sou.   Atropelou e nem olhou pra trás, nem parou pra pensar nos julgamentos e agressões que me fez. Atravessou. Porque ser gorda nunca é estar certa. Ser gorda é estar no lugar errado, ocupar o seu espaço, te atrapalhar em sua pressa. Veja bem senhor ciclista, O senhor até me fez, por algum momento, me sentir mal por estar alí, atravessando, enquanto o verde estava para mim, autorizando minha travessia. Cheguei até pensar que eu estava errada...

Sutilidades

(Escrito em 14 de setembro de 2015) Te assusto com os insultos que me saem de minha boca  supostamente macia, ingênua e delicada de mulher? Foda-se.

Versos XLVIII

(Escrito em 14 de setembro de 2015) [Sem Título] Indo ao fato concreto do ato que manifesto: Jogar-se é uma arte! Arte de cair Arte de se esvair De esvaziar-se para encher-se de ar Ariadne Senna